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[Omona! Fashion] HANBOK: Não só uma roupa do passado

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Um casal de vinte e poucos anos caminha pelo Gyeongbukgung vestindo hanbok, a tradicional roupa coreana. Sua calça roxa e sedosa, a tradicional baji, se encaixa na cintura e vai até os calcanhares. Bem diferente das calças grudadas de hoje em dia, que modelam-se no corpo.

Houve uma época em que era fácil chegar a conclusões com esse cenário. Pode ser que estivessem gravando um drama histórico da Dinastia de Joseon, ou um feriado tradicional coreano como o Chuseok ou o Seollal.

No entanto, nos últimos anos, parece que o tradicional hanbok está sendo revivido. Estilistas da modernidade estão trabalhando para virar o jogo e tornar os hanbok mais acessíveis, brincando com suas linhas e estampas. Graças à facilidade de alugar os hanbok, há milhares de estrangeiros usando a hashtag “hanbok” pelas mídias sociais. Tanto os próprios coreanos quanto visitantes posam em locais famosos como os palácios de Seul, as vilas tradicionais Bukchon Hanok e Jeonju Hanok.

O design incrível dos hanbok já chamou a atenção de nomes famosos do mundo da moda, como Karl Lagerfeld, Carolina Herrera, Giorgio Armani e Miuccia Prada. Revistas ao redor do mundo estão investigando o significado dos hanbok no mundo moderno e se perguntando seu futuro. O que significa esta moda e será que veio pra ficar?

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A história do hanbok

Apesar de muitos associarem o hanbok com a Era Joseon (1392-1910), as origens de sua tradição podem ser traçadas por volta de quatro séculos antes de Cristo. Apesar de se transformar durante o tempo, o conceito básico manteve-se consistente.

Há menos de um século, o hanbok ainda era a vestimenta comum do povo coreano, tendo até mesmo seu nome com significado literal de “roupa coreana”. Marcado por suas linhas simples e claras, reconhecido por suas cores vibrantes feitas de tintas naturais, o conjunto de duas peças aparentes geralmente é feito de cetim, seda ou linho e distinto para homens e mulheres.

A roupa masculina geralmente consiste de uma parte de cima (jeogori) maior, a calça (baji) larga e uma faixa que amarra a calça na região dos tornozelos (daenim).

Já a feminina, possui uma parte de cima (jeogori) que se desenha melhor ao corpo e uma saia em formato de sino (chima). O jeogori feminino possui a gola em linhas que geralmente chamam a atenção para o pescoço de quem o veste.

Muitos acessórios podem estar inclusos, como sobretudos (po), coletes (jokki), casacos (magoja), saiote, chapéus, enfeites de cabelo e perucas femininas.

Bordados eram reservados para a realeza. Assim como em muitas outras culturas, a cor e qualidade de um hanbok servia para distinguir a posição social de quem o usava.

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© Tchai Kim

Harmonizando beleza e significado

Muito mais que na estética, o encanto de uma roupa tradicional está em seu movimento e simbolismo. Uma dança cuidadosa entre o complexo e o simples, o liso e o volumoso, e as linhas curvas se em pontas retas, o hanbok exibia o desejo coreano de aproximar-se da natureza, mantendo a vida em equilíbrio.

Apesar de variantes contemporâneas do hanbok adicionando estampas floridas ou cores monótonas em sua mistura, as cores tradicionais eram encontradas na natureza como vermelho, azul, verde, amarelo, preto e branco eram organizadas num esquema. Cada uma das cores e tons expressavam um diferente sentido e complementos de tons a harmonia entre yin e yang. Compatível com qualquer tipo de corpo e dando o máximo de mobilidade, as sutis sombras desenhavam os movimentos do hanbok e davam destaque para as silhuetas naturais de cada um.

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A mídia social e o renascimento do hanbok

Numa tentativa de acelerar a modernização, o rei Gojong, penúltimo monarca da Dinastia Joseon, implementou mudanças na moda como parte da Reforma Gabo, em 1895. Mais tarde, roupas produzidas industrialmente se tornaram mais acessíveis e, na segunda metade do século XX, cada vez menos pessoas utilizavam o hanbok na vida cotidiana.

Como dito antes, esse cenário está mudando!

Uma simples pesquisa pelo Instagram pela hashtag de “hanbok” em coreano (#한복) gera mais de 400.000 publicações. Um estudo conduzido pelo SK Planet mostra que só entre os anos de 2014 e 2015, as pesquisas de internet pela roupa tradicional coreana mais do que duplicaram de 960.000 para 2,1 milhões.

Muitas fotos na internet são de mulheres jovens, sejam adolescentes ou em torno de vinte anos, vestindo hanbok enquanto calçam tênis. Choi Jung-chul, do Hanbok Advanement Center, comentou que, apesar dos alugueis de hanbok terem crescido significativamente nos últimos quatro anos com os esforços da Vila Tradicional Jeonju (Jeonju Hanok) e locais semelhantes, a vestimenta só tornou-se a sensação do momento no ano retrasado, quando o número de aluguéis atingiu o décuplo dos anos anteriores.

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A influência da Hallyu

Já que os turistas estrangeiros são grande parte dessa porcentagem na febre do hanbok, o quanto será que a Hallyu toma parte nessa moda? Estariam as celebridades que postam fotos ou comparecem em eventos vestindo hanbok sendo uma influência? Será que o interesse na vestimenta tradicional tem alguma relação com sua aparição nos dramas?

Ou seria uma onda de nacionalismo e nostalgia da juventude moderna?

Muitos estudiosos da moda dizem que esse foi o resultado da combinação de todos esses fatores, junto do ciclo da moda. Kwon Mi-ru, uma blogger conhecida no Instagram por suas viagens ao redor do mundo vestindo hanbok, cita que pode haver mais um motivo para essa popularidade repentina no mundo fashion. Um artigo no Joongang Ilbo chamado “Não importa o que, o Hanbok é preferível” dá créditos a ela na conhecida febre do “hanbokstagram”. Ela respondeu que o fato do hanbok ser agradável aos olhos está ajudando nessa sensação, “Se vestir o hanbok fosse uma demonstração de nacionalismo ou método de marketing, acabaria rápido. A juventude de hoje não está retomando tradições: está apenas tentando se divertir“.

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© LEESLE

A moda e os nomes na industria atual

Os estilistas coreanos que vem trabalhando de perto com o hanbok nos últimos anos podem não gostar muito da ideia dessa sensação ser apenas por diversão. Não apenas alguns dos maiores nomes da moda coreana são voltados à roupa tradicional, muitos colocam toda sua paixão em encontrar um novo lugar para a vestimenta no mundo moderno ou criar variações mais cômodas para o cotidiano.

Lee Yebom, um dos nomes no design de hanboks contemporâneos, diz que o hanbok moderno na moda é “bem feminino e florido”.

A chima moderna busca comprimentos que vão até alguns centímetros acima dos joelhos. Diferente das cores vibrantes do hanbok tradicional, agora são usadas cores mais leves como um rosa claro ou azul bebê para primavera e verão, e tons neutros como bege, azul marinho ou amarelo mostarda para outono e inverno. Já o Jeogori por vezes sai do convencional e busca golas mais ingrimes e estampas floridas.

A linha de designs de Yebom, que você pode encontrar no Instagram (@yebom_yangpum), reflete esse estilo contemporâneo de hanbok para o mercado jovem. Para a sorte dela, havia vários estilistas em quem se inspirar.

Nos últimos quarenta anos, a estilista Lee Young-hee foi pioneira no ramo. Ela introduziu sua coleção de hanbok em Paris em 1993, levando a vestimenta tradicional para o desfile de “French Haute Couture” em 2010. Ela pavimentou o caminho para jovens estilistas continuarem trazendo materiais inovadores.

Um dos estilistas que se inspirou em suas coleções foi Kim Young-jin, dono da marca “Tchai Kim”. Dentre os produtos mais conhecidos da grife está o vestido cheollik, uma versão modernizada dos uniformes militares da Dinastia Joseon.

Hwang Leesle, CEO da marca Leesle, é conhecida por seus acréscimos práticos ao hanbok. Ela incorpora o hanbok ao cotidiano colocando zípers no lugar de laços e tornando o tecido mais fácil de colocar pra lavar.

Outro nome famoso por tornar o hanbok “casual” é In Oh-kyung, dona de uma companhia de hanbok chamada “Inohjudan“. Ela ficou famosa por criar hanbok que utilizavam estampas com desenhos americanos como Bob Esponja, sendo também uma entre os cinco estilistas coreanos em Hollywood no último desfile pré-Oscar, introduzindo o hanbok ao público.

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Conseguindo fama internacional

A promoção dos hanbok começou por volta de 1996, quando o Dia do Hanbok foi decretado. Havia campanhas sem sucesso que incentivavam as pessoas a usarem hanbok no primeiro sábado de todo mês.

Em 2010, foi lançado pelo Ministério da Cultura um projeto de desfiles de moda bienal chamado “Conceito Coreia“, visando gerar atenção para a moda coreana. Apesar de não limitado ao hanbok, colocava a Coreia em destaque. Um ano depois, roupas inspiradas no hanbok podiam ser vistas em coleções da Chanel e Dior, avançando no mundo da moda.

Dentre os coreanos, e em parte graças a Kwon Mi-ru, a hashtag “hanbok travel” está fazendo sucesso no Instagram, e há muitas jovens coreanas que estão levando seus hanbok em viagens internacionais. A estudante Lee Su-bin, que recentemente foi entrevistada pela Cosmopolitan Korea, disse que gostaria de unir seu sonho de se tornar uma estilista com o de viajar o mundo. Vestindo o hanbok em suas viagens, ela acredita que será capaz de adaptar sua experiência.

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© SONJJANG Inc.

Vista hanbok e ganhe coisas de graça

Com o crescimento no turismo em 2013, juntamente com a ascensão da Hallyu, é possível notar o aumento do interesse na Coreia tradicional.

Há várias propagandas sendo exibidas ao público que se interesse pelo hanbok e deseja adaptá-lo às roupas e experiências na cidade de Seul. O Seoul Global Tourism lançou um programa de hanbok, convidando visitantes a provarem a roupa. Visitantes que estiverem vestindo o hanbok conseguem entradas de graça em todos os cinco palácios de Seul. Recentemente, foram até mesmo incluídas visitas noturnas aos palácios.

Em julho do ano passado, o Departamento do Distrito Jongno anunciou que começariam um projeto chamado “Hanbok Love in Action”, com o qual os restaurantes do distrito oferecerão 10% de desconto para aqueles que estiverem vestidos com um hanbok.

Enquanto muitos profissionais no ramo de hanbok dão boas vindas ao interesse e a atividade nas mídias sociais dado à roupa, há também uma preocupação que esta moda seja efêmera. A estilista de hanbok In Oh-kyun diz que ainda há um longo caminho a ser percorrido: “Sim, a cultura do hanbok está mudando. Porém, eu espero que um dia isso possa se tornar parte da moda como o hip-hop e o estilo gótico se tornaram. Esta moda ainda está longe de se tornar estável e, para conseguirmos chegar a isso, devemos encontrar métodos de integrá-la de forma mais natural como parte da sociedade”.

Apenas roupas comuns – Por Seoul staff

Leesle Hwang se esforça para tornar o hanbok uma peça do cotidiano

A estilista Leesle Hwang quer ver mais pessoas vestindo hanbok. No entanto, seu motivo não é nacionalismo. Segundo ela: “Você não deve vestir hanbok só porque é coreano. Eu quero que o hanbok torne-se uma roupa que qualquer um pode usar em seu cotidiano, independente da nação, porque é bonito”.

E ela definitivamente não coloca só da boca pra fora. Em seu blog, há várias fotos dela em cafés, cinemas e até mesmo no ônibus, vestindo hanbok. Ela chamou de “Desafio das 1.000 atividades em hanbok”, visando ajudar a tornar a presença do hanbok parte do dia a dia nas ruas da Coreia.

“É meu trabalho fazer isso para que possam comprar o hanbok em lojas comuns e torná-lo uma peça tão comum quanto as calças jeans. Algo que você pode vestir num encontro”.

Do cosplay para a Vogue

CEO e fundadora da marca de hanbok Leesle e a marca de hanbok festivos Sonjjang, Hwang começou há dez anos, quando era uma caloura na faculdade, estudando para tornar-se da guarda florestal. Como parte do clube de quadrinhos e literatura, ela criou um hanbok baseado nos designs do quadrinho coreano “Gung”, para um evento de cosplay na primavera. O modelito foi um sucesso, sendo vendido online imediatamente por ₩80.000.

“Foi então que eu percebi que eu não era a única querendo vestir o hanbok”, ela relembra.

Com apenas um computador, uma câmera e ₩45.000 para a taxa de inscrição, ela fundou uma loja online. Agora ela possui oito funcionários e faz cerca de 1,5 bilhões de won de vendas anuais. Ela atende vários pedidos por dia de compradores de outros países da Ásia, Europa, Oceania e América. Ela foi até mesmo citada numa recente matéria da Vogue, mesmo ainda estando na faixa dos vinte anos.

Abrindo mentes

Os modelitos de Hwang criam uma sensação jovial e moderna da roupa tradicional coreana. Suas roupas são fáceis de vestir, usando zípers e outros elementos modernos. São laváveis na máquina. Sua costura é levantada, as saias menos largas e os temas tradicionais tornam-se vestidos ou até mesmo camisetas. Alguns de seus modelos são inovadores, e na verdade, alguns críticos se recusam a chamá-los de hanbok.

Hwang abriu sua visão para o mundo. Ela diz, com mente aberta: “Acho que se uma roupa incorporar a natureza bela da Coreia, sua filosofia e seus materiais, podemos chamá-la de hanbok”.

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© LEESLE

Fonte: magazine.seoulselection 
Tradução/Adaptação: CahAmzalak
Edição/Revisão: Beatriz Hecht
*Não retire nosso conteúdo sem os devidos créditos*

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